UM DIA SEM MEXICANOS

15 Outubro, 2008

Sátira óbvia sobre a maciça presença latina na Califórnia e o preconceito resultante pelas classes dominantes. O que aconteceria se um dia todos os mexicanos em Los Angeles desaparecessem? Este é o mote de UM DIA SEM MEXICANOS (A DAY WITHOUT A MEXICAN/UN DIA SIN MEXICANOS, EUA/México/Espanha, 2004, Europa), que investiga em tom debochado o caos – principalmente econômico – consequência do sumiço. A culpa para o desaparecimento parece ser de uma estranha névoa que cerca a cidade. O formato narrativo é de programa de TV, mas nem isso o filme respeita bem. A realização é por vezes amadora, e as piadas que se sobressaem podem até garantir o entretenimento. Mas lá pelas tantas o que começou como comédia fica cada vez mais parecido com novela mexicana, com sua cota de sentimentalismo e reviravoltas extravagantes. O diretor Sergio Arau era cartunista político antes de embarcar no cinema. Realizado em vídeo, não ajuda o DVD contar com imagem abaixo da média. Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado.

IMPÉRIO DO PAVOR

15 Outubro, 2008

Logo após a Guerra Civil, dois irmãos confederados retornam ao lar de seus pais. Enquanto o caçula (um jovem Rock Hudson) se contenta com a vida simples do campo, o mais velho (o ótimo Robert Ryan) ambiciona poder e fortuna. O diretor Budd Boetticher, um especialista em westerns baratos e de qualidade, extrai da trama simples de IMPÉRIO DO PAVOR (HORIZONS WEST, EUA, 1952, Universal/Classicline) um poderoso relato sobre a corrupção do poder. O roteiro foge de alguns clichês óbvios, como atribuir a culpa pela ambição do protagonista à sua relação com a femme fatale vivida por Julie Adams, uma contratada da Universal que faria fama nadando ao lado do MONSTRO DA LAGOA NEGRA (1954). A primeira metade, que mostra a ascensão de Ryan, é melhor. A segunda é mais corrida, e por isso, prejudicada. Boa cópia, tirada de uma cópia licenciada pela própria Universal, mas sem extras.

 

Fazer um programa duplo com MORRER OU VIVER (D.O.A./DEAD OR ALIVE - HANZAISHA, Japão, 1999) e MORRER OU VIVER 2 (DEAD OR ALIVE 2 – TOBOSHA, Japão, 2000), lançados no Brasil diretamente em DVD pela Europa, é uma boa oportunidade de conhecer o trabalho de Takashi Miike, um dos cineastas mais prolíficos, instigantes e influentes a atravessar o Pacífico nos últimos 10 anos. A ultra-violência, o humor negro, a perversão, a lógica de cartoon e a falta de respeito com as convenções dramáticas são características que fizeram a cabeça de cineastas ocidentais como Quentin Tarantino, Robert Rodriguez e Eli Roth. Este último até incluiu uma ponta de Miike como um cliente satisfeito da sessão de torturas que é O ALBERGUE. Já Tarantino fez o caminho e inverso e trabalha como ator em SUKIYAKI WESTERN DJANGO.

Pela receita, percebe-se que o cinema de Takashi Miike não é para todos os gostos. Mesmo que a violência seja menos perturbadora e mais anárquica, com um pé nos desenhos animados de Tex Avery, a busca do cineasta pela diversão através do choque fere qualquer convenção e abandona todas as noções de bom gosto. É impressionante também como o cineasta produz numa velocidade inigualável. Só em 2001, ele lançou nada menos do que sete filmes, feito que repetiu em 2002. No ano passado, além de SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Miike lançou outros três longas. E geralmente mantendo a criatividade e a invenção que também são marcas de seu cinema.

Veja por exemplo o caso destes dois MORRER OU VIVER. Concebidos como as duas primeiras partes de uma trilogia (o filme final ainda não foi lançado comercialmente por aqui), os dois MORRER OU VIVER dividem entre si apenas o título e a dupla de protagonistas, Sho Aikawa e Riki Takeuchi. Só que estes interpretam personagens diferentes em contextos diferentes. Ou seja, não é um mero caso de continuação e sim uma trama original que se aproveita de temas em comum.

O primeiro filme fala sobre uma guerra entre a máfia chinesa e a Yakuza japonesa pelo controle do crime organizado em Shinjuku, bairro barra-pesada de Tóquio. No meio do conflito está Jojima (Aikawa), um tira desesperado para levantar dinheiro para a operação de sua filha, e também o gângster Ryuichi (Takeuchi), que não poupa nada ou ninguém para conseguir seus intentos. A trama, que começa em ritmo alucinante com uma montagem de pura adrenalina que cobre uma série de assassinatos, leva ambos os personagens a um duelo final e (literalmente) apocalíptico. Ao longo da narrativa, Miike mistura sem pudor sentimentalismo dos filmes chineses de John Woo com soluções aproveitadas diretamente de REPO MAN, o cult de Alex Cox.

MORRER OU VIVER 2 traz os mesmos atores na pele de outros personagens. Sho (que aqui assina Show) Aikawa faz o alucinado assassino Okamoto enquanto Riki Takeuchi interpreta seu amigo de infância e também matador de aluguel Sawada. Ambos se reencontram ao executarem (ao pé da letra) o mesmo serviço e se mandam para a ilha onde cresceram, onde tem a idéia surreal de aproveitarem o seu ganha-pão para ajudar criancinhas necessitadas. É o bastante para Miike colocar asas de anjo nas costas de cada um mesmo em meio à matança desenfreada. Ainda assim, e apesar dos toques surrealistas se apresentarem logo de cara, é um filme mais caloroso e “humano” que o anterior. Até onde, é claro, que um filme de Miike pode ser chamado de humano.

Ambos os DVDs são desprovidos de extras (trazem só versões em MP4 para serem vistas em players portáteis), mas as transferências são satisfatórias, fazendo jus ao visual estilizado do diretor. Fica faltando a distribuidora disponibilizar o capítulo final desta saga, produzido em 2002.

AURORA

12 Outubro, 2008

A capinha traz uma ostentosa citação de François Truffaut, que declara ser este o filme mais belo do mundo. Não tem como negar. AURORA (SUNRISE – A SONG OF TWO HUMANS, EUA, 1927, Versátil) é uma obra-prima absoluta, um dos filmes mais lindos já realizados. Marcou a estréia nos EUA do alemão F.W. Murnau, realizador de marcos das diversas fases do expressionismo como NOSFERATU, A ÚLTIMA GARGALHADA e FAUSTO. É impressionante o supremo domínio técnico de Murnau, sempre, porém, em favor da criação de um mundo entre o onírico e o real, entre a noite e o dia. Murnau utiliza todos os elementos cinematográficos disponíveis na época (foi o filme mais caro realizado pela Fox até então), de efeitos visuais sofisticadíssimos a movimentos de câmera e iluminação elaborados, e até mesmo o então incipiente som cinematográfico. AURORA foi dos primeiros filmes sonoros da história, sendo a sonoplastia aqui utilizada para dar lastro à atmosfera. Para os diálogos, Murnau lançou mão dos intertítulos comuns no cinema mudo, com exceção de uma breve cena, quando a mocinha está no meio de cruzamento e se ouvem algumas frases ditas pelos motoristas que ali transitam. O casal protagonista também é de primeira. George O’Brien (que faria SANGUE DE HERÓI e LEGIÃO INVENCÍVEL para John Ford) transborda masculinidade e transita com precisão entre o desejo, a afeição e o remorso, no papel de um homem do campo se envolve com mulher da cidade grande, que o convence a assassinar sua esposa. Mas quem brilha mesmo é a maravilhosa Janet Gaynor, a protagonista da primeira versão de NASCE UMA ESTRELA, no papel da doce e dedicada companheira (os personagens não têm nome). Murnau morreria de acidente de carro alguns anos depois, aos 43 anos, dando fim prematuramente a uma carreira marcante. Vencedor de 3 Oscars na primeira premiação da Academia, incluindo o de melhor atriz para Gaynor. Ótima edição, com imagem restaurada, trailer e cenas alternativas (como aquela com o famoso plano seqüência que mostra a caminhada da amante, sem os cortes da versão final). Imprescindível.

ANTES DA REVOLUÇÃO ««««
(Prima della Rivoluzione, 1964) de Bernardo Bertolucci
BABEL «« ½
(2006) de Alejandro Gonzáles Iñarritu – em Blu-ray
BOM DIA, TRISTEZA ««««
(Bonjour tristesse, 1958) de Otto Preminger
CÃO DANADO «««««
(Nora inu/Stray Dog, 1949) de Akira Kurosawa
O DIVÓRCIO DE MADAME X ««
(The Divorce of Lady X, 1938) de Tim Whelan
2 DIAS EM PARIS «« ½
(2 Days in Paris/2 jour a Paris, 2007) de Julie Delpy
ENCURRALADOS «« ½
(Butterfly on a Wheel, 2007) de Mike Barker
UM DIA A CASA CAI «« ½
(Money Pit, 1986) de Richard Benjamin
UM DIA SEM MEXICANOS «
(A Day Without a Mexican/Un Dia sin Mexicanos, 2004) de Sergio Arau
UM ESTRANHO NA ESCURIDÃO ««« ½
(I See a Dark Stranger, 1946) de Frank Launder
FINAL FANTASY VII – ADVENT CHILDREN «
(2004) de Tetsuya Nomura e Takeshi Nozue
HOMBRE ««««
(1967) de Martin Ritt
IMPÉRIO DO PAVOR «««
(Horizons West, 1952) de Budd Boetticher
UM LUGAR PARA RECOMEÇAR ««
(An Unfinished Life, 2005) de Lasse Hallström
MARCADO PELA SARJETA ««««
(Somebody Up There Likes Me, 1956) de Robert Wise
MINHA AMIGA FLICKA ««« ½
(My Friend Flicka, 1943) de Harold D. Schuster
MORRER OU VIVER 2 ««« ½
(D.O.A. 2 – Tobosha, 2002) de Takashi Miike
MORTE NO FUNERAL «««
(Death at a Funeral, 2007) de Frank Oz
A MÚMIA «««
(The Mummy, 1999) de Stephen Sommers – em Blu-ray
OLDBOY ««« ½
(2004) de Park Chan-Wook – em Blu-ray
O OURO DE NÁPOLES ««« ½
(L’Oro di Napoli, 1954) de Vittorio De Sica
A OUTRA «
(The Other Boleyn Girl, 2008) de Justin Chadwick – em Blu-ray
ROMASANTA – A CAÇADA DO LOBO ««
(Romasanta – La Casa de la Bestia/Romasanta – The Werewolf Hunt, 2004) de Paco Plaza
OS SETE SAMURAIS «««««
(Shichinin No Samurai, 1954) de Akira Kurosawa
SONHOS «««
(Akira Kurosawa’s Dreams, 1990) de Akira Kurosawa
SORTE NO AMOR «« ½
(Bull Durham, 1988) de Ron Shelton
SUSPEITA ««« ½
(Suspicion, 1941) de Alfred Hitchcock

E a série
FAMÍLIA SOPRANO: 2ª TEMPORADA ««««

HOMEM-ARANHA: A TRILOGIA

10 Outubro, 2008

Os filmes em si não são novidade, os DVDs também não. Entretanto, a iniciativa da Sony de agrupar os três filmes da série HOMEM-ARANHA em uma só caixa serve como um bom presente de Dia das Crianças, já que o preço é bem em conta, ou para atender aqueles que não são lá muito fãs de extras. Afinal, foram incluídos no box apenas os primeiros discos – aqueles com os filme e alguns atrativos – das edições duplas disponibilizadas anteriormente, deixando os respectivos discos de extras principais de fora. Os filmes vêm em luvas slim, aquelas mais fininhas, que cabem melhor em prateleiras lotadas.

De resto, são exatamente as mesmas edições, para o bem e para o mal. Para o mal porque logo o primeiro filme, HOMEM-ARANHA (SPIDER-MAN, EUA, 2002), traz a mesma versão em tela cheia presente na primeira edição do filme no Brasil (porque não colocaram a versão em Superbit?), que deforma os enquadramentos originais elaborados pelo diretor Sam Raimi e que remetem aos quadrinhos de onde saíram as histórias do herói. Os demais episódios não tiveram o mesmo azar, e contam com seus formatos de tela devidamente preservados. Tirando isso, o filme continua divertido, com o mesmo frescor da estréia. É uma história de origem, algo que sempre tem um apelo especial ao público, que se identifica com a trajetória de um sujeito comum que se descobre extraordinário. No caso, o tímido Peter Parker (Tobey Maguire, perfeito), um geek típico, daqueles que ama de longe a menina mais bonita da classe, mas que trava completamente quando tem de trocar duas palavras com ela. A vida de Parker começa a mudar quando este é picado por uma aranha geneticamente modificada e descobre que ganhou poderes de natureza aracnídea como subir pelas paredes, dar saltos imensos, carregar até dez vezes seu peso e, mais impressionante, fabricar a própria teia.

Ter poderes sobrehumanos pode ser o sonho de qualquer adolescente, principalmente daqueles que são preteridos nos times de futebol, mas o problema é que com grandes poderes vêm também grandes responsabilidades. Ou seja, nada de usar os dons em proveito próprio. É o que Parker, agora travestido em Homem-Aranha, vai descobrir às duras penas ao longo desta primeira leva de filmes do herói (duas novas aventuras, também com Raimi e Maguire, já estão em pré-produção). Começando pelo assassinato do tio Ben (o veterano Cliff Robertson), causado em grande parte por um descuido deliberado do herói. A culpa resultante é o que impedirá que o Homem-Aranha se deixe corromper pelos poderes, um tema que ganha contornos mais explícitos no terceiro (e inferior) filme.

Nesta aventura inicial, a seqüência de eventos que leva à descoberta dos poderes é o grande momento do roteiro. É quando Raimi é mais bem sucedido ao capturar o deslumbramento que é ter um evento extraordinário mudando uma vida pacata. De resto, o filme cai no lugar comum do mocinho contra o vilão, um apagado Duende Verde (Willem Dafoe), que já prenunciam o calcanhar de Aquiles da série. As cenas de ação, progressivamente mais grandiosas a cada filme, nunca chegam a emocionar de verdade, por se aproximarem em sua concepção mais do universo dos games e da animação. Não é sempre que o uso extenso de efeitos digitais é combinado de forma satisfatória com os elementos dramáticos, algo que afasta demasiadamente o espectador do aspecto humano dos personagens. Outro problema que eu tenho com a série é que esta privilegia o melodrama em detrimento do aspecto boa-praça do personagem. O Aranha dos quadrinhos, mesmo sofrendo os maiores revezes, sempre mantém o bom humor, contando piadinhas infames enquanto esmurra os vilões, que não sabem se sofrem mais com a pancadaria ou com o senso de humor do herói.

Da trilogia, o episódio que melhor equilibra a ação, os efeitos, o humor e o melodrama é HOMEM-ARANHA 2 (SPIDER-MAN 2, EUA, 2004), que coloca o Aranha contra o Dr. Octopus (Alfred Molina). É onde Sam Raimi parece mais à vontade, talvez pela trajetória do vilão se assemelhar aos dos monstros trágicos do cinema que o diretor tanto adora, monstros que apesar das aparências eram mais tristes que maus de verdade. Esta edição traz a versão exibida no cinema e não aquela estendida, que também foi disponibilizada em DVD como HOMEM-ARANHA 2.1.

Em HOMEM-ARANHA 3, a receita parece desandar. O excesso comanda a empreitada, que não sabe muito bem pra onde quer ir, e que quando vai, acaba por comprometer a cumplicidade do espectador. Excesso de trama, de drama, de humor, de ação, de vilões (o Venom é completamente dispensável)… Ainda assim, é um blockbuster que se serve de idéias, e que se conecta tematicamente com os filmes anteriores, algo raro na produção megalomaníaca dos grandes estúdios.

De qualquer forma, os fãs de verdade da série já devem ter todos os DVDs lançados até agora e, quem sabe, até mesmo as versões em Blu-ray, o que torna esta caixa algo redundante. Mas vai que você tem algum sobrinho bacana para presentear?

ARTHUR E OS MINIMOYS

22 Setembro, 2008

Para encontrar um tesouro escondido por seu avô no quintal de sua fazenda, garoto acaba descobrindo um mundo miniatura, habitado por criaturas fantásticas. Após passar os últimos anos produzindo fitas de ação para o público adolescente (como o pavoroso TAXI, com Gisele Bundchen, e a bem sucedida série CARGA EXPLOSIVA), o francês Luc Besson agora baixa ainda mais a faixa etária de seu público com ARTHUR E OS MINIMOYS (ARTHUR ET LE MINIMOYS, França, 2006, Europa) sua primeira incursão na animação, baseada num livro infantil de sua autoria. Mas para o bem ou para o mal, a marca do diretor está aqui, tanto no humor infame quanto no visual euro-trash dos personagens e nas escolhas pretensamente “ousadas e moderninhas”, como convidar Madonna para fazer a voz da mocinha e bolar um trecho passado em um bar, onde os personagens usam drogas e possuem visual psicodélico. A narrativa continua trôpega, como é característica do diretor, que não parece muito à vontade com os recursos da animação. Várias das seqüências de ação são confusas quando deveriam ser excitantes. O filme funciona melhor nas seqüências live action que abrem e fecham o filme, apesar do histrionismo de Mia Farrow, que faz a avó do herói (o simpático Freddie Highmore). Ainda assim, fez sucesso suficiente para gerar duas seqüências, que Besson está rodando simultaneamente. Edição traz dois trailers, making of, entrevistas e videoclipe.

OS IRMÃOS MCMULLEN

20 Setembro, 2008

Três irmãos, descendentes de irlandeses, lidam com as inseguranças da vida adulta, como relacionamentos e paternidade. Bastou vencer o Grande Prêmio do Júri em Sundance com seu longa de estréia OS IRMÃOS MCMULLEN (THE BROTHERS MCMULLEN, EUA, 1995, Universal), realizado com menos de US$ 24 mil, uma ninharia, para o ator, roteirista e diretor Edward Burns ser catapultado para o estrelato hollywoodiano. Só terminou por ser uma das promessas não concretizadas dos anos 1990. Burns nunca virou o astro que sua estampa permitia, mesmo tendo atuado em filmes de relevo como O RESGATE DO SOLDADO RYAN e 15 MINUTOS. E pior: sua carreira como cineasta foi ainda mais frustrante, tendo realizado filmes progressivamente piores como NOSSO TIPO DE MULHER e UMA PAIXÃO EM NOVA YORK. Revendo OS IRMÃOS MCMULLEN, percebe-se que o ôba-ôba na época foi exagerado. Burns alterna algumas sacadas com momentos de puro amadorismo, algo que foi relevado pela mídia da época, que tinha acabado de redescobrir o cinema independente americano. Realizado em 16mm, o que explica a imagem por vezes escura e sem definição. Traz trailer de cinema.

OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA

19 Setembro, 2008

Foi um balde de água fria nos críticos da época. Um dos grandes nomes do neo-realismo, do cinema conscientizado, da vanguarda européia, o cineasta que recusara aceitar um astro como Cary Grant como estrela de LADRÕES DE BICICLETA para manter a integridade da obra, traíra o movimento (no caso, os críticos) e se vendera ao cinemão. Vittorio De Sica, o traidor em questão, passara a figurar como ator em superproduções hollywoodianas, como ADEUS ÀS ARMAS, lembrando seus tempos de galã de antes da guerra. E ainda pior, deixara de lado o tom político de seus filmes para virar diretor de aluguel em fitas comerciais estreladas por astros do cinema mundial, como Shirley MacLaine (SETE VEZES MULHER), Peter Sellers (O FINO DA VIGARICE), Faye Dunaway (UM LUGAR PARA OS AMANTES) e Richard Burton (VIAGEM PROIBIDA).

Mas nenhum alvo foi tão visado pelos críticos da época que a série de filmes que De Sica rodou com Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Sendo os maiores astros do cinema italiano, era inevitável que fossem reunidos em filmes com ambições populares, ainda mais considerando que o marido de Loren era o mega-produtor Carlo Ponti, responsável tanto por produções grandiosas como ULISSES, GUERRA E PAZ e DOUTOR JIVAGO quanto por obras premiadas como A ESTRADA DA VIDA, O DESPREZO e DEPOIS DAQUELE BEIJO. O que ninguém contava é que logo De Sica fosse o responsável por tornar a dupla um dos casais de maior sucesso em todo mundo, em filmes de grande apelo popular como MATRIMÔNIO À ITALIANA (indicado aos Oscars de atriz para Loren e de filme estrangeiro), ONTEM, HOJE E AMANHÃ (Vencedor do Oscar de filme estrangeiro) e este OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA (I GIRASOLI, Itália/Rússia, 1970, Versátil).

Enquanto ONTEM, HOJE E AMANHÃ e MATRIMÔNIO À ITALIANA fixaram na mente do público várias das características normalmente associadas aos italianos – a infidelidade, o caráter passional, os amores entre tapas e beijos – OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA assume uma nota mais trágica e romântica. O filme começa após a 2ª Guerra, com a personagem de Loren, Giovanna, interpelando representantes do exército italiano em busca de informações sobre o paradeiro de seu marido Antonio (Mastroianni), que desapareceu no front soviético. Ninguém parece saber dele. A trama então recua para alguns anos antes, mostrando como o casal se conheceu quando ele estava de licença do exército. Se apaixonam, se casam, se trancam em um apartamento onde revezam entre fazer amor e omeletes (uma seqüência memorável mostra praticamente em tempo real Loren e Mastroianni preparando um jantar, enquanto conversam apaixonadamente). Em seguida, Antonio é convocado para enfrentar o exército soviético na Sibéria e aí é dado como desaparecido. Giovanna não se dá por convencida da morte de seu amado e parte para a Rússia atrás dele.

Talvez uma das razões pela frieza com a qual OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA tenha sido recebido pela crítica ocidental seja o fato de ter sido rodado em locações na Rússia com o apoio daquele regime. Hoje isso só comprova o poder de fogo do produtor Carlo Ponti, mas na época, em plena guerra fria, serviu como mais um argumento para os detratores da produção. Mas o que realmente irritou os críticos foi ver De Sica, acompanhado do igualmente célebre roteirista Cesare Zavattini, embarcar sem o menor receio em um projeto tão assumidamente comercial e sentimental. Isso não impediu, porém, que o público se apaixonasse pela história trágica e fizesse do filme um grande sucesso, até hoje lembrado e reverenciado. A cara produção, com belas locações, centenas de figurantes, fotografia de Giuseppe Rotunno (prejudicada pela cópia em DVD) e música de Henry Mancini (indicada ao Oscar), deu ao filme o verniz necessário para tal aceitação. Não quer dizer que OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA seja desprovido por isso de valores artísticos, muito pelo contrário. Vendo o filme com o distanciamento permitido pelos anos, percebe-se claramente suas muitas qualidades, que transcendem até o carisma inegável do casal perfeito do cinema italiano. Basta reparar na bela seqüência ao final, quando os amantes se encontram nas penumbras de um quarto de hotel. É de uma dor palpável. E De Sica tem claro domínio do escopo da produção, nunca perdendo de vista o conflito central.

A ESTRANHA PERFEITA

19 Setembro, 2008

A ESTRANHA PERFEITA (PERFECT STRANGER, EUA, 2007, Sony) é uma das inúmeras variações de INSTINTO SELVAGEM, sem chegar nem perto da mesma carga erótica e de suspense, apesar de lembrar o sucesso que consagrou Sharon Stone em mais de uma maneira. É também um das inúmeras escolhas infelizes de Halle Berry, após ganhar o Oscar, injustamente por sinal, por A ÚLTIMA CEIA. Falta carisma e, por que não, talento a atriz para segurar um papel de protagonista, a repórter que faz de tudo para levantar provas contra famoso publicitário que, acredita ela, tenha assassinado sua amiga de infância. Tudo bem que aqui o roteiro não ajuda nem um pouco. A tensão é nula e a protagonista é tão antipática e antiética que fica difícil torcer por ela. Bruce Willis está em seu modo automático “quarentão charmoso”, sem precisar flexionar nem um músculo – facial ou peitoral – sequer. E Giovanni Ribisi, coitado, foi realmente eleito o esquisitão da vez e potencial suspeito. A direção frouxa nem parece que é de James Foley, que realizou alguns filmes promissores como CAMINHOS VIOLENTOS e O SUCESSO A QUALQUER PREÇO. Edição de ótima qualidade técnica, com making of legendado e trailers de outros filmes. Também em Blu-ray.