MORRER OU VIVER / MORRER OU VIVER 2
14 Outubro, 2008
Fazer um programa duplo com MORRER OU VIVER (D.O.A./DEAD OR ALIVE - HANZAISHA, Japão, 1999) e MORRER OU VIVER 2 (DEAD OR ALIVE 2 – TOBOSHA, Japão, 2000), lançados no Brasil diretamente em DVD pela Europa, é uma boa oportunidade de conhecer o trabalho de Takashi Miike, um dos cineastas mais prolíficos, instigantes e influentes a atravessar o Pacífico nos últimos 10 anos. A ultra-violência, o humor negro, a perversão, a lógica de cartoon e a falta de respeito com as convenções dramáticas são características que fizeram a cabeça de cineastas ocidentais como Quentin Tarantino, Robert Rodriguez e Eli Roth. Este último até incluiu uma ponta de Miike como um cliente satisfeito da sessão de torturas que é O ALBERGUE. Já Tarantino fez o caminho e inverso e trabalha como ator em SUKIYAKI WESTERN DJANGO.
Pela receita, percebe-se que o cinema de Takashi Miike não é para todos os gostos. Mesmo que a violência seja menos perturbadora e mais anárquica, com um pé nos desenhos animados de Tex Avery, a busca do cineasta pela diversão através do choque fere qualquer convenção e abandona todas as noções de bom gosto. É impressionante também como o cineasta produz numa velocidade inigualável. Só em 2001, ele lançou nada menos do que sete filmes, feito que repetiu em 2002. No ano passado, além de SUKIYAKI WESTERN DJANGO, Miike lançou outros três longas. E geralmente mantendo a criatividade e a invenção que também são marcas de seu cinema.
Veja por exemplo o caso destes dois MORRER OU VIVER. Concebidos como as duas primeiras partes de uma trilogia (o filme final ainda não foi lançado comercialmente por aqui), os dois MORRER OU VIVER dividem entre si apenas o título e a dupla de protagonistas, Sho Aikawa e Riki Takeuchi. Só que estes interpretam personagens diferentes em contextos diferentes. Ou seja, não é um mero caso de continuação e sim uma trama original que se aproveita de temas em comum.
O primeiro filme fala sobre uma guerra entre a máfia chinesa e a Yakuza japonesa pelo controle do crime organizado em Shinjuku, bairro barra-pesada de Tóquio. No meio do conflito está Jojima (Aikawa), um tira desesperado para levantar dinheiro para a operação de sua filha, e também o gângster Ryuichi (Takeuchi), que não poupa nada ou ninguém para conseguir seus intentos. A trama, que começa em ritmo alucinante com uma montagem de pura adrenalina que cobre uma série de assassinatos, leva ambos os personagens a um duelo final e (literalmente) apocalíptico. Ao longo da narrativa, Miike mistura sem pudor sentimentalismo dos filmes chineses de John Woo com soluções aproveitadas diretamente de REPO MAN, o cult de Alex Cox.
Já MORRER OU VIVER 2 traz os mesmos atores na pele de outros personagens. Sho (que aqui assina Show) Aikawa faz o alucinado assassino Okamoto enquanto Riki Takeuchi interpreta seu amigo de infância e também matador de aluguel Sawada. Ambos se reencontram ao executarem (ao pé da letra) o mesmo serviço e se mandam para a ilha onde cresceram, onde tem a idéia surreal de aproveitarem o seu ganha-pão para ajudar criancinhas necessitadas. É o bastante para Miike colocar asas de anjo nas costas de cada um mesmo em meio à matança desenfreada. Ainda assim, e apesar dos toques surrealistas se apresentarem logo de cara, é um filme mais caloroso e “humano” que o anterior. Até onde, é claro, que um filme de Miike pode ser chamado de humano.
Ambos os DVDs são desprovidos de extras (trazem só versões em MP4 para serem vistas em players portáteis), mas as transferências são satisfatórias, fazendo jus ao visual estilizado do diretor. Fica faltando a distribuidora disponibilizar o capítulo final desta saga, produzido em 2002.

