O HOMEM QUE PERDEU A HORA
31 Agosto, 2008
Um diretor de escola média fanático com horários tem de chegar a tempo em uma reunião da sociedade da categoria, da qual é presidente. Só que encontra todo tipo de obstáculo pelo caminho. Quando o grupo inglês Monty Python se dissolveu na década de 80, o cinema de humor mundial perdeu um de seus maiores pilares. Responsável por clássicos como A VIDA DE BRIAN e O SENTIDO DA VIDA, o Monty Python foi a maior e mais cáustica revelação cômica desde que os Irmãos Marx se aposentaram. Após a dissolução do grupo, cada um dos seis integrantes seguiu seu próprio caminho, às vezes se cruzando aqui e ali. A primeira opção de John Cleese, o que melhor incorpora a fleuma britânica dentre eles, foi virar ator cômico, tanto de TV (onde o Monty Python nasceu no final dos anos 60) quanto de cinema. Esse O HOMEM QUE PERDEU A HORA (CLOCKWISE, Inglaterra, 1985) é das produções que Cleese rodou nessa fase. É curioso por brincar com uma das obsessões inglesas, a pontualidade, com algumas cenas realmente hilárias, ainda mais com o distanciamento crítico que torna aquela década ainda mais engraçada. Mas roteiro e direção estão longe do mesmo padrão de qualidade com o qual Cleese se acostumou (e nos acostumou) na época do Monty Python. Não é a toa que o ator voltaria a se envolver mais com roteiro e produção no posterior UM PEIXE CHAMADO WANDA, com excelentes resultados. Vale a conferida, apesar da edição sem extras.
UMA ESCOLA DE ARTE MUITO LOUCA
30 Agosto, 2008
Nova colaboração entre o diretor Terry Zwigoff (dos cáusticos CRUMB e PAPAI NOEL ÀS AVESSAS) e o roteirista e quadrinista underground Daniel Clowes, depois do celebrado GHOST WORLD. Como o anterior, UMA ESCOLA DE ARTE MUITO LOUCA (ART SCHOOL CONFIDENTIAL, EUA, 2005) sai diretamente em DVD no Brasil. Em tom bem confessional, se inspira na experiência de Clowes numa escola de arte na qual ingressou na adolescência. A trama segue jovem que sonha em ser artista plástico entra pra uma escola de artes, onde está acontecendo uma série de assassinatos. O mais difícil é registrar tal ambiente e personagens sem cair na caricatura, mas mantendo o humor observativo, o que Zwigoff e Clowes conseguem com êxito, equilibrando com cuidado os elementos cômicos e a trama policial. Muito por conta do bom elenco. O protagonista Max Minguella é filho do falecido cineasta Anthony Minguella, mas não há sinal de nepotismo, já que o garoto tem verdadeira empatia. John Malkovich, também produtor, faz um professor, enquanto o ótimo Jim Broadbent interpreta um artista frustrado e recluso. Já Angelica Huston faz quase uma ponta. A mocinha Sophia Myles, por quem o personagem de Minguella se apaixona, esteve em TRISTÃO & ISOLDA. Boa edição, com extras curtos, mas interessantes, todos legendados: o tradicional Making Of; um especial sobre o lançamento mundial no Festival de Sundance; 12 cenas excluídas; erros de gravação e uma cena adicional.
ESPELHO
29 Agosto, 2008
Após um terrível incêndio, uma série de assassinatos misteriosos assombra um shopping às vésperas da reabertura. O responsável pela segurança do local, um ex-policial, começa a suspeitar que os crimes possam ter origem sobrenatural. O badalado cinema coreano atual se divide em dois grupos distintos, ambos porém bem recebidos pela crítica – os filmes de “arte” (como os de Kim Ki-duk, de CASA VAZIA) e os de gênero, principalmente guerra, policial e horror. É neste grupo que se situa este ESPELHO (GEOUL SOKERU, Coréia do Sul, 2003), cujo sucesso em seu país de origem imediatamente levou seus direitos de refilmagem a serem comprados por Hollywood (o remake americano, estrelado por Kiefer Sutherland e dirigido por Alexandre Aja, deve ser lançado no Brasil ainda este ano). Mas não espere demais deste filme original, que de original tem muito pouco. Vários elementos, aliás, foram pisados e repisados pelos filmes do gênero japoneses. O resultado não impressiona (como no sensacional O HOSPEDEIRO), apesar de causar alguns calafrios aqui e ali. Mas não deixa de causar certa fascinação o uso que o diretor estreante Sung-ho Kim faz de superfícies reflexivas, que funcionam como metáforas para dualidades de caráter e cisão de personalidade. A produção é de Woo-suk Kang, diretor de 684 – UNIDADE DE COMBATE. Edição sem extras, com curiosa alternância de formatos de tela (1.78:1 e 1.85:1), provavelmente causado por algum erro de autoração. Mas é algo que provavelmente passará batido na maior parte dos televisores, senão todos.
SEXY, ZEN!
29 Agosto, 2008
Um rico e poderoso senhor de terras, viciado em sexo, teme que sua filha virgem e pura seja vítima de algum tarado, inventando para ela um inviolável cinto de castidade. Apesar da Ásia ser normalmente um mercado pouco afeito a produções com alto teor erótico, existe um grande nicho para pornochanchadas como este SEXY, ZEN! (YU PO TUAN ER ZHI YU NU XIA JING, Hong Kong, 1996), que mistura elementos da comédia safada italiana – como as de Tinto Brass na fase recente de sua carreira – e das fantasias orientais conhecidas popularmente conhecidas na China como Wuxia. Isso explica a presença tanto do mais puro besteirol – o pênis de aço é particularmente infame – quanto de cenas mais sanguinolentas e fantásticas, como a presença de personagens místicos chamados de Lady Miragem e Homem de Ferro. O sexo, apesar de ser em doses generosas, é implícito, mas filmado com mais verve e tesão que os softcores exibidos nas madrugadas televisivas. É tudo tão inusitado e sem limites para a imaginação e o mau gosto que acaba por divertir. Mas é indicado para aqueles que buscam por curiosidades fílmicas na linha de sexploitation. Cópia descente, mas filme não. Sem extras.
THE SHIELD: 1ª TEMPORADA / WITHOUT A TRACE: 2ª TEMPORADA
28 Agosto, 2008
Uma tendência cada vez mais dominante nas séries de TV atuais é a que estabelece uma cronologia entre os episódios, tornando-os cada vez mais dependentes entre si. No passado, isso era pouco comum. Os episódios de uma série, por mais que repetissem os mesmos personagens e contexto, não eram continuações diretas uns dos outros, e podiam ser apreciados sem que o espectador tivesse acompanhado a série até o momento. Eram assim seriados como MISSÃO: IMPOSSÍVEL, onde a equipe liderada por Jim Phelps (Peter Graves) resolvia um caso diferente a cada semana, sem que os protagonistas necessariamente se desenvolvessem entre uma aventura e outra. Ao contrário, continuavam exatamente os mesmos, quase arquétipos. Séries que abordavam crimes e investigações sempre foram mais propícias para esta abordagem, já que o foco era apenas nos casos, que variavam a cada episódio. Até mesmo seriados adultos como LEI E ORDEM mantinham essa estrutura.
Hoje em dia é diferente. Com o sucesso de 24 HORAS, PRISON BREAK e outras do tipo, as séries ganharam maior continuidade entre os episódios e o background dos personagens passou a interessar tanto ou até mais do que as aventuras em si. Não que não continuem existindo seriados baseados em histórias avulsas, mas até estes procuram criar uma unidade entre as histórias através do desenvolvimento do lado pessoal e emocional dos personagens. É o que acontece, por exemplo, com WITHOUT A TRACE (EUA, 2003-2004). A série aborda a unidade do FBI sediada em Nova York especializada em desaparecimentos e seqüestros. A cada episódio, temos um diferente caso a ser investigado, que nos é apresentado logo na introdução, onde acompanhamos sempre os últimos momentos da vítima antes de desaparecer. A partir daí, os investigadores, liderados pelo determinado Jack Malone (o ótimo Anthony LaPaglia), assumem o caso e o destrincham ao longo do episódio. O processo investigativo é o mais interessante e a grande razão de ser da série. Os agentes mantém na sede do FBI um grande quadro branco onde se estabelece a linha cronológica que culmina no tal desaparecimento. A cada nova pista encontrada, esta é inserida na linha cronológica, da forma a tornar claro para o espectador o desenrolar dos fatos. Desta forma, sabemos tanto quanto os personagens sobre o caso, o que nos torna também investigadores do mesmo. É uma solução simples e primitiva de interatividade, mas ainda eficiente, ainda mais da maneira como é inserida na dramaturgia.
Só que os realizadores – entre eles o mega-produtor Jerry Bruckenheimer – se preocupam ainda em capturar a fidelidade do espectador ao tornar cada vez mais evidente a vida pessoal e o passado de cada um dos agentes que compõem a equipe de Malone. Se os casos em si raramente se interligam, esta continuidade se dá a partir do ambiente pessoal dos personagens. É algo que se faz ainda mais presente nesta segunda temporada, lançada em DVD pela Warner. Só que a sobriedade que marca o desenvolvimento dos casos é comprometida com a sacarina excessiva que tempera a vida pessoal dos heróis.
Exatamente o oposto do que acontece em THE SHIELD (EUA, 2002), outra série recém-lançada em DVD (pela Sony) que aborda processos investigativos. Desta vez pelas mãos dos policiais de um distrito barra-pesada na periferia de Los Angeles. O protagonista é o detetive Vic Mackey (o excelente Michael Chiklis, vencedor do Globo de Ouro e do prêmio Emmy pelo papel), o líder da tropa de elite do distrito. Só que ao contrário de Jack Malone e do nosso Capitão Nascimento, Mackey não se importa em sujar as mãos, muitas vezes por interesse próprio, desde que o caso seja resolvido e ele consiga manter a ordem no bairro, dominado por gangues latinas. Esta primeira temporada começa com a introdução do novo capitão de polícia do distrito, David Aceveda (Benito Martinez), que decide derrubar Mackey para poder ele próprio se promover publicamente.
É curioso comparar THE SHIELD com WITHOUT A TRACE e perceber como ambas retratam diferentes formas de se perceber os agentes da lei pelo público americano. Enquanto os heróis de WITHOUT A TRACE são modelos de comportamento, eficientes e incorruptíveis, mesmo quando cometem falhas, em THE SHIELD as coisas já não são tão simples. Cada um dos personagens procura, nem sempre com sucesso, se equilibrar entre o cumprimento do dever e as necessidades e ambições pessoais. Geralmente sofrem com isso, moral e fisicamente. É portanto uma série com pretensões mais realistas, o que explica inclusive a opção em filmar em 16mm e com câmera na mão, o que dá aos episódios um tratamento visual mais documental.
THE SHIELD se diferencia de WITHOUT A TRACE também no que diz respeito à valorização da continuidade da narrativa e da cronologia dos acontecimentos em detrimento dos casos individuais, que também se fazem presentes a cada episódio, mas não são o foco destes. Temos o novato idealista que se compromete para esconder a homossexualidade, o detetive brilhante que sofre com a solidão, o policial que tem de arcar com a descoberta de que o filho é autista e por aí vai. Todos estes dramas são mais interessantes do que os crimes investigados, que parecem estar ali apenas para dar textura aos personagens. Talvez por isso, THE SHIELD seja até mais viciante, apesar de ambas contarem com ótimo elenco de apoio.
Ambas as séries receberam ótimo tratamento pelas distribuidoras. WITHOUT A TRACE tem como único extra cenas excluídas dos episódios, mas a qualidade técnica é bem acima da média. Já THE SHIELD é ainda mais caprichado: comentários em áudio, cenas excluídas, documentários e comerciais de TV completam a edição. Detalhe: tudo legendado em português.
VIDA DE MENINA
28 Agosto, 2008
Na Diamantina do século XIX, uma garota coloca no papel suas travessuras, seus sonhos, e a crônica de uma época. VIDA DE MENINA (Brasil, 2004) é baseado nos diários de Helena Morley (pseudônimo de Alice Dayrell Cadeira Brant) que ganhou projeção internacional com a tradução para o inglês de Elizabeth Bishop. A jovem Helena é vivida por Ludmila Dayer (que fez Carlota Joaquina quando criança no longa de Carla Camuratti), que apesar de ter idade e sotaque errados para o papel, não compromete. Singelo pode ser um adjetivo adequado para esse primeiro longa de ficção da documentarista Helena Solberg (CARMEN MIRANDA – BANANA IS MY BUSINESS), mas não dá conta da complexidade das relações sociais e familiares que se escondem por trás da simplicidade narrativa. A grande sacada de Solberg é a de não enfatizar o que as imagens já trazem implícito, como o tratamento dispensado aos negros (o filme se passa logo após a abolição da escravatura). O elenco é irregular e a estrutura episódica – compreensível, considerando a origem. Mas o filme de Solberg consegue capturar com beleza e emoção o contexto histórico de uma época e o olhar de uma criança sobre as discrepâncias dolorosamente atuais de uma república ainda imberbe. Filmado em locações em Diamantina, com bonita fotografia de Pedro Farkas e música de Wagner Tiso. Edição dupla traz making of, cenas excluídas, trailer e versão MP4, mas formato de tela não-anamórfico.
O GENERAL MORREU AO AMANHECER
28 Agosto, 2008
O GENERAL MORREU AO AMANHECER (THE GENERAL DIED AT DAWN, EUA, 1936) é veículo obscuro para o galã Gary Cooper que tem como maior mérito antecipar vários elementos dos filmes noir das décadas seguintes. Porque de outra forma, é apenas uma aventura dramática banal e sem maior interesse. Em meio à guerra civil na China dos anos 30, um americano (Cooper) se oferece para comprar armas para serem usadas contra um ditador sanguinário. Muito pouco para um diretor como Lewis Milestone, de SEM NOVIDADES NO FRONT e da primeira versão de ONZE HOMENS E UM SEGREDO. A narrativa é estranhamente truncada, com planos esquisitos e escolhas de montagem que nunca se explicam. Alguma perversão traz tempero para uma trama morna, mas, excetuando a visão descaradamente preconceituosa para com os asiáticos (enquanto o mocinho ianque é honesto, fiel e possui genuíno senso de justiça), o único interesse é a presença do russo Akim Tamiroff (que trabalharia com Orson Welles e Godard), que, devidamente maquiado, compõe o sádico e fascinante General Yang. A qualidade de imagem é fraca e o áudio possui uma estranha reverberação. Sem extras.
AQUISIÇÕES DA SEMANA
27 Agosto, 2008
Três novas aquisições em Blu-ray para o GABINETE esta semana:
- THE MUMMY (Universal)
- THE MUMMY RETURNS (Universal)
- V FOR VENDETTA (Warner)
A PRAGA
27 Agosto, 2008
Todas as crianças do mundo entram em coma ao mesmo tempo. Dez anos depois, voltam à vida com comportamento homicida. A PRAGA (CLIVE BARKER’S THE PLAGUE, EUA, 2006) é um suspense sobrenatural feito direto para o mercado de vídeo e que traz a marca do escritor Clive Barker. Aqui Barker funciona como produtor apenas, mas a trama, que mistura elementos de filmes de zumbis com A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS, traz certa profundidade e ambição que costumam marcar seu trabalho. O problema é que, como grande parte das produções diretas para vídeo, esta sofre com o baixo orçamento, que prejudica a ambientação e explica o elenco de segunda. O astro da série DAWSON’S CREEK, James Van Der Beek, por exemplo, cresceu e tem boa presença, mas está completamente inexpressivo, mesmo em cenas em que seu personagem deveria externar alguma emoção, como quando descobre o corpo de seu irmão, assassinado pelo próprio filho. O resto do elenco, incluindo aí a veterana Dee Wallace (E.T., GRITO DE HORROR), também não está muito melhor. É uma pena, porque a idéia inicial é interessante e o filme traça alguns paralelos com essa época de medo, paranóia e violência, e pressupõe o que tudo isso pode fazer com a cabeça das crianças de hoje em dia. Extras incluem oito cenas excluídas (legendadas) e comentários em áudio (sem legendas) dos atores Brad Hunt e Joshua Close e do montador Ed Marx, que justificam a ausência de Van Der Beek por este estar ocupado com compromissos relacionados à série DAWSON’S CREEK.
A NOIVA SÍRIA
27 Agosto, 2008
Na comunidade drusa de Golan, na fronteira entre Israel e Síria, uma noiva (Clara Khoury) e sua família enfrentam a burocracia para que esta possa se casar com um primo distante, residente da Síria. Logo no início de A NOIVA SÍRIA (HA-KALA HA-SURIT, Israel/França/Alemanha, 2004), do diretor Eran Riklis, um letreiro explicativo situa o espectador ocidental na delicada situação pela qual passa a cidade de Golan: apesar de oficialmente não dever fidelidade a nenhum dos dois países, está ocupada desde 1967 por Israel, o que gera uma animosidade entre os simpatizantes da Síria. Entre eles está o pai da noiva, Hammed (Makram Khoury, pai de Clara também na vida real). O fato de ter sido preso por lutar pela libertação de Golan do governo de Israel o torna pouco simpático perante as autoridades locais, e o impede de comparecer à despedida da filha, prometida a um noivo que nunca chegou a conhecer, um astro de telenovelas sírio. Toda a situação é por demais surreal: uma vez atravessando a fronteira para a Síria, a noiva Mona nunca mais poderá voltar para casa ou rever seus parentes. E tudo fica mais absurdo ainda quando um trâmite legal impede que a travessia se complete, quando todos já estão na fronteira entre os dois países. As várias tramas paralelas, incluindo a da irmã da noiva (a ótima Hiam Abbass, de FREE ZONE e MUNIQUE) que é infeliz no casamento, deixam tudo com cara de novela, o que pode até ser proposital considerando que um dos personagens trabalha em uma. Mas A NOIVA SÍRIA funciona bem para retratar o absurdo que reina na região. Vencedor do Prêmio do Público em Locarno e de quatro prêmios no Festival de Montreal. Inclui trailers de outros filmes e versão MP4.

